CRÔNICA - Dormentes a me guiar
Dia após dia, enquanto caminhava, os dormentes eu contava, pensava num belo coração que me chamasse a atenção
Ah! Aqueles dormentes sobre os quais eu
caminhava honrosamente, com minha farda limpa e engomada, todas as
manhãs; como se fossem meus companheiros de Tiro de Guerra!
Chuva ou sol lá estava eu a caminhar sobre os dormentes que orientavam as linhas do trem, e meus passos também!
Contava um a um, e quando apertava o passo, dois a dois. Às
vezes, até parava e escrevia, com um pedaço de giz meu nome ao lado de
um outro alguém, nos dormentes da linha do trem!
Pensamentos diversos em minha cabeça passavam, durante o tempo
em que sobre eles pisava. Sentia que enquanto passava um alguém me
observava, e, sem saber, nem desconfiava que minh'alma gêmea se
aproximava.
Dia após dia, enquanto caminhava, os dormentes eu contava,
pensava num belo coração que me chamasse a atenção; sem saber que alguém
estava, em pensamento, segurando minha mão! E, assim eu continuava
apressando meus passos para atrasado não chegar! Enquanto eu voltava,
muitas vezes cansado, cabisbaixo, com a farda suja e amassada, havia
sempre um alguém a me olhar.
Ah! Se eu pudesse ao tempo voltar e poder abraçar aquela que em pensamento me amava, sem sequer se declarar!
Hoje as coisas mudaram, não vejo mais dormentes, asfalto
somente. Mas aquele amor, que era diferente, vive ao lado da gente, com a
mesma intensidade de antigamente!
Juntos estamos, com filhos e netos. Vez em quando me recordo,
com saudade evidentemente, dos meus velhos, inesquecíveis e confidentes:
''dormentes''.
Wilson Oliveira Trindade é bacharel em Direito em Londrina

Fonte: Folha de Londrina - Folha 2